Por que o ensino de inglês não é o foco principal da educação bilíngue

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Por que o ensino de inglês não é o foco principal da educação bilíngue

10/05/2018 Vanessa Tenório
educação bilíngue

Por que o ensino de inglês não é o foco principal da educação bilíngue

Qual o objetivo de uma escola ao decidir oferecer educação bilíngue (português e inglês, por exemplo) aos seus alunos? Certamente, o principal deles é possibilitar que esses alunos alcancem um nível alto de fluência em inglês ao final do programa.

Entretanto, esta é uma visão reducionista diante da enorme oportunidade de oferecer uma educação mais ampla, mais rica e mais significativa explorando todo o potencial da educação por meio de uma segunda língua ou língua adicional.

Para que esse potencial seja explorado, é fundamental que se enxergue a língua adicional não apenas como um fim, mas também como um meio de expor o aluno a desafios constantes e crescentes, com o objetivo de educá-lo de maneira integral.

É necessário que o desenvolvimento de língua, conteúdo e competências seja feito de maneira integrada em uma proposta pedagógica cujas bases não se reduzam às teorias de aquisição de uma segunda língua (Second Language Acquisition Theories).

Pedir ao professor de língua inglesa para replicar o que os professores das outras disciplinas fazem não é educação bilíngue. É fundamental que se tenha um olhar mais amplo para buscar bases em outros campos científicos como o da educação, psicologia, psicopedagogia e neurociência.

Educação bilíngue não é apenas sobre língua

A educação bilíngue parece ter entrado de vez na pauta das instituições de educação do setor privado no Brasil. Como consequência, temos assistido a um crescimento exponencial da oferta de materiais didáticos, consultorias e programas para a educação bilíngue. Em uma análise menos superficial, podemos concluir que, em sua ampla maioria, as propostas limitam seu foco ao desenvolvimento linguístico do aluno.

Em alguns materiais didáticos, vemos, por exemplo, textos sobre assuntos de ciências, história, geografia, sendo apresentados como “conteúdo”, quando, na verdade, são utilizados essencialmente como ponto de partida para a exploração de estruturas gramaticais da língua inglesa ou vocabulário relacionado ao tema.

A estrutura gramatical hierárquica da língua ainda é a espinha dorsal de muitas das propostas disponíveis no mercado de programas que se posicionam como solução para o ensino bilíngue.

Livros didáticos de ciências e matemática em inglês não levam automaticamente à integração de língua e conteúdo

Outra opção que temos visto aparecer no mercado como proposta de programa de educação bilíngue é a utilização de livros didáticos de matérias diversas em inglês, mais comumente de ciências e matemática. O fato de uma parte ou a totalidade das aulas dessas matérias ser dada em inglês não significa que a língua esteja sendo integrada e desenvolvida a contento.

Alguns programas acrescentam livros de inglês como matéria – Language Arts – da mesma forma que é feita em escolas internacionais, cuja língua oficial é aquela do país de origem da escola. Em outros casos, são adotados livros de inglês para estrangeiros, como os livros dos cursos de inglês oferecidos por escolas de idiomas. Em nenhum destes casos, o trabalho de integração de língua e conteúdo é explorado.

A integração entre língua e conteúdo precisa ser eficiente

Como integrar língua e conteúdo de maneira eficiente? Essa é a pergunta-chave que inúmeros pesquisadores e praticantes da área de ensino de uma língua adicional por meio de conteúdo têm tentado responder há décadas.

Desde o início do Imersão canadense na década de 1960, passando pelo CBI (Content-Based Instruction) americano, até a a disseminação do CLIL (Content and Language Integrated Learning) pelos europeus a partir da década de 1990, temos visto muitas tentativas de integrar língua e conteúdo em programas para a educação bilíngue, mas a maioria ainda parece estar distante de uma integração de fato eficiente.

Um artigo publicado em 2014 por Jasone Cenoz, Fred Genesee e Durk Gorter, três pesquisadores respeitados da área, chama a atenção para a necessidade de se pesquisarem maneiras eficientes de integrar língua e conteúdo, o que demonstra que, também na academia, as discussões nesse sentido estão longe de se exaurir.

Com a criação da União Europeia e a globalização, pesquisas nessa área têm se multiplicado em muitas instituições de nível superior de todo o mundo e associações de áreas específicas como a AILA (Associação Internacional de Linguística Aplicada) têm apoiado iniciativas como o CLIL Research Network.

Paralelamente, a intensificação da imigração nos Estados Unidos obrigou as escolas públicas de ensino básico a receberem milhões de crianças cuja primeira língua não é o inglês. Isso gerou a necessidade de buscar práticas pedagógicas mais eficientes para o desenvolvimento concomitante de língua e conteúdo dos alunos não nativos. Assim, várias universidades americanas de reconhecida excelência têm intensificado as pesquisas nessa área para dar suporte ao sistema educacional americano.

A evolução constante deve ser o objetivo

Acreditamos que para se ter excelência em educação, é necessário que a proposta pedagógica esteja em constante evolução, interpretando, adequando ao contexto local e trazendo para a prática os bons produtos da pesquisa acadêmica.

No final dos anos 1990, começamos a estudar as várias formas de ensino de língua por meio de conteúdo. Em 2002, colocamos em prática o projeto-piloto do Systemic Bilingual e desde então temos acompanhado as pesquisas da área de educação bilíngue, visitado iniciativas similares em várias partes do mundo, testado práticas pedagógicas diversas e observado os resultados, operando em ciclos contínuos de evolução.

Inicialmente partimos de teorias e princípios defendidos por pesquisadores da área de Second-language Acquisition, por vezes colocando lado a lado visões opostas, como o Natural Approach de Stephen Krashen e a Output Hypothesis de Merrill Swain. Incorporamos, ainda, outras teorias como Focus on Form, de Michael Long e práticas resultantes de pesquisas mais aplicadas com aquelas apresentadas no Counterbalanced Approach proposto por Roy Lyster.

Ao longo de todo o nosso trajeto, refinamos nossa prática pedagógica, intensificando cada vez mais a integração de língua e conteúdo. Ao maximizarmos essa integração, verificamos que, além de um desenvolvimento linguístico jamais atingido com outras abordagens, competências e atitudes como pensamento crítico e autonomia, apareciam como “ganhos colaterais” da nossa prática.

Compreendemos, então, que o potencial dessa abordagem era infinitamente maior. Passamos a buscar, em outras áreas, teorias e princípios que pudessem dar sustentação às nossas próprias hipóteses e encontramos em Vygotsky e outros pensadores da psicologia e da educação bastante insumo para nos guiar e ampliar a nossa perspectiva.

Além de língua e conteúdo, as competências do século XXI precisam ser contempladas na proposta

Os ciclos evolutivos da nossa prática nos levaram a concluir que o desenvolvimento de competências e habilidades não deveria ser um ganho colateral aleatório da abordagem que integra língua e conteúdo, mas um objetivo a ser atingido e igualmente trabalhado de maneira integrada em um programa de educação bilíngue.

Ainda mais importante é a compreensão de que educação de qualidade seja, por meio da primeira língua ou de uma língua adicional, tem que visar ao desenvolvimento integral do aluno. Portanto, focar em qualquer objetivo isolado, como levar os alunos à fluência na língua adicional, significa ignorar a magnitude e as potencialidades da educação bilíngue.

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Vanessa Tenório

Mestra em Educação pela University of Bath, na Inglaterra, e especialista em educação bilíngue.