Crianças bilíngues: elas merecem muita qualidade da língua adicional

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Crianças bilíngues: os pequenos merecem muita qualidade da língua adicional

24/05/2018 Fátima Tenório
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Crianças bilíngues: os pequenos merecem muita qualidade da língua adicional

Sabemos que começamos o processo de aprendizagem da nossa língua materna com a escuta. Esse é um processo natural.

Ouvimos todas as pessoas que estão ao nosso redor e quem quer que faça parte do nosso primeiro convívio diário. Todos esses se tornam nossa principal fonte de “input” (insumo de língua). Não seria estranho, então, imaginarmos que a língua adicional aconteceria da mesma forma.

Como elas aprendem?

Na verdade, para a criança pequena, qualquer que seja a língua acessível aos seus ouvidos, será a língua que servirá como meio para sua comunicação, será a língua que ela vai reproduzir.

A partir desse repertório oferecido, ela desenvolverá o seu próprio repertório. É daí que surge a importância de termos muito cuidado com a qualidade de língua a que a criança será exposta.

Não gostaríamos de ouvir nossos filhos reproduzindo a nossa língua e nem qualquer outra língua com erros, e muito menos erros básicos.

Criança pequena, inglês de gente grande

Pois bem, quando se trata de escolhermos um programa bilíngue para nossas crianças, precisamos ficar bem atentos à formação e fluência do professor. E, ao contrário do que pensamos, que criança pequena, por ter pouco conhecimento e ainda um pequeno repertório linguístico, pode ter professores da língua adicional menos fluentes ou pouco qualificados, estamos enganados.

É exatamente para os pequenos que temos que ser bem exigentes. É bom saber que é na primeira fase da infância que o processo de aquisição da língua está em plena formação e moldagem.

O que deve ser avaliado?

Quando avaliamos a fala da criança, mesmo em nossa língua mãe, estamos observando um conjunto inteiro de aspectos, como pragmática (intenção comunicativa), o léxico (vocabulário), a morfossintaxe (formação da estrutura da língua, de frases, por exemplo), o aspecto fonológico (inventário de sons de uma língua e suas regras que se combinam e dão significado), fluência e aspectos de processamento e memória fonológica (quando essa nova informação é mantida temporariamente na memória, para posteriormente ser utilizada, como por exemplo, em um novo idioma aprendido), afirma a professora Laís Rocha, mestra em Distúrbios da Comunicação Humana.

O mesmo se aplica à criança estudante bilíngue. Reforçando ainda que o quer que seja captado na infância, poderá ter o registro feito para sempre e ainda haver uma fossilização do erro, o que será mais trabalhoso para ser consertado no futuro.

Portanto, muita atenção para a qualificação do professor para crianças pequenas, principalmente em programas bilíngues! É importante exigir que o professor tenha total domínio da língua adicional e uma boa fluência.

Como a aquisição acontece?

Nessa fase, a criança irá ouvir muita música, historinhas, parlendas, rimas e estará o tempo inteiro exposta a muito discurso livre do professor, fonte mais expressiva de insumo da língua. Esses todos são exemplos de modelos que contribuirão para a “entrada auditiva” da criança, que por imitação e observação, ela irá reproduzi-los, e na maioria das vezes, fielmente, reforça a fonoaudióloga Laís Rocha. Daí a necessidade da boa qualidade dessas fontes.

Lembrando ainda que um ambiente verdadeiramente capaz de transformar uma criança em um indivíduo bilíngue não se vale de ensinar ou fazer a criança decorar palavrinhas, frases isoladas e musiquinhas na língua adicional. Isso não é educar uma criança em um ambiente bilíngue, arriscaríamos dizer que é “adestrar” uma criança.

Em um ambiente bilíngue, a criança tem que vivenciar, exercitar e praticar a língua da forma mais natural possível, onde a linguagem circulante faça total sentido para ela e de onde ela possa fazer suas associações, negociações, tirar suas conclusões, montar seu repertório e utilizá-lo de forma confortável e segura.

 

Isso para nós significa “empoderar” uma criança na língua adicional!

Para entender melhor a relação entre a educação bilíngue e a aquisição de um segundo idioma, leia nosso post sobre o assunto.

Fátima Tenório

Mestra em Educação pela University of Bath, na Inglaterra, e especialista em educação bilíngue.